Carta do Supérior Geral Nº 74 aos amigos e benfeitores
Queridos amigos e benfeitores:
Quando lançamos uma nova cruzada do Rosário com
ocasião de nossa peregrinação a Lourdes em outubro passado,
não contávamos, certamente, com ma resposta tão rápida
do Céu ao nosso pedido. Com efeito, assim como sucedeu com nossa primeira
petição, à qual Nª Senhora tinha respondido tão
eficazmente por meio do Vigário de Cristo e deu Motu Proprio sobre a
Missa tradicional, quis Nª Sra conceder-nos uma segunda graça ainda mais
rapidamente: no transcurso de uma visita a Roma em janeiro, quando entreguei
o ramalhete de 1.703.000 terços rezados pelas intenções
do Sumo Pontífice, recebia das mãos do Cardeal Castrillón
Hoyos o decreto de remissão das “excomunhões”.
Tínhamos pedido desde 2001 como sinal de boa vontade da parte do Vaticano
para com o movimento tradicional, porque desde o Concílio tudo o que
é e quer ser tradicional na Santa Igreja sofre uma perseguição
atrás da outra, ato o ponto de negar-lhe o direito de cidadania. Isto,
obviamente, destruiu em parte ou completamente a confiança nas autoridades
romanas. Enquanto esta confiança não for parcialmente —dizia
então— nossas relações seguiriam mínimas.
A confiança não é somente um bom sentimento; é o
fruto que nasce naturalmente quando vemos nestas autoridades os pastores que
têm em conta o bem de tudo o que chamamos “a Tradição”.
E nossos pré-requisitos foram formulados neste sentido.
É impossível, de fato, compreender nossa posição
e nossa atitude frente à Santa Sede se não se quer incluir a percepção
do estado de crise em que se encontra a Igreja. Não se trata de algo
superficial nem de uma visão pessoal. Estamos diante de uma realidade
independente de nossa percepção, admitida de vez em quando pelas
mesmas autoridades e comprovada muitas vezes pelos fatos. Esta crise tem muitos
aspectos, variados, em ocasiões profundas, outras vezes circunstanciais
e todos nós a sofremos.
Os fieis se sentem mal impressionados pelas cerimônias da nova liturgia
—que com freqüência são escandalosas— y pela pregação
habitual, na que, no campo moral, se ensinam coisas completamente contrárias
à doutrina multissecular da Igreja e do exemplo dos Santos. Freqüentemente
os pais de família tiveram que comprovar, com enorme dor, a perda da
fé de seus filhos confiados a institutos católicos de formação,
ou lamentar sua quase total ignorância da doutrina católica por
falta de um catecismo sério. Um número incalculável de
religiosos, depois das revisões de suas Constituições e
da reciclagem post-conciliar, manifesta uma perda do espírito evangélico,
em particular do de renúncia, a pobreza e o sacrifício; perda
que teve como conseqüência quase imediata uma diminuição
tal de vocações que muitas Ordens e Congregações
fecham seus conventos um depois do outro ou simplesmente desaparecem. Em muitas
dioceses a situação é igualmente dramática.
Tudo o que foi dito constitui uma unidade coerente e não aconteceu por
casualidade, mas depois de um concilio que quis ser reformador, adaptando a
Igreja ao gosto da época. Somos acusados de ver uma crise onde não
há ou de atribuir falsamente a este concilio conseqüências
que, a pesar de tudo, são desastrosas, extremadamente graves e que qualquer
pessoa pode comprovar, ou ainda de aproveitar esta situação para
justificar uma atitude incorreta de rebelião ou de independência.
No entanto, tomemos os textos dos Santos Padres da Igreja, do Magistério,
da liturgia, da teologia, ao longo de todos os tempos e acharemos uma unidade
à qual aderimos de todo o nosso coração. E esta unidade
doutrinal é fortemente contradita pelas linhas de conduta atuais. Nós
não inventamos uma ruptura; infelizmente ela existe com clareza. Basta
ver o modo como nos tratam alguns episcopados, inclusive depois que retiraram
o decreto das excomunhões, para comprovar o quanto é profundo
o repúdio dos modernistas diante de tudo o tem sequer uma aparência
de Tradição, a tal ponto que é impossível não
dar a este repúdio o nome de ruptura com o passado.
Sim, do mesmo modo que nos surpreendemos pela publicação do decreto
do dia 21 de janeiro, assim também pela violência da reação
dos progressistas e da esquerda em geral contra nós. É verdade
que encontraram a desejada oportunidade nas pouco felizes declarações
de Dom Willamson e através de uma injusta amalgama, puderam maltratar
nossa Fraternidade como um bode expiatório. Na realidade fomos um simples
instrumento na luta muito mais importante: a da Igreja, que com razão
leva o título de “militante”, contra os espíritos
perversos que infestam os ares como diz São Paulo.
Certamente, não hesitamos inserir nossa história na grande história
da Igreja, na dessa luta titânica pela salvação das almas
já anunciada no Gênesis e descrita de modo cativante no Apocalipse
de São João. Com freqüência esta luta se mantêm
a nível espiritual, às vezes, passa da esfera dos espíritos
e das almas à dos corpos e se transforma em visível, como nas
perseguições abertas.
Através do que aconteceu nestes últimos meses é preciso
reconhecer um momento mais intenso desta luta. E é muito claro que aquele
que está na mira é o Vicário de Cristo, no seu empenho
de iniciar uma certa restauração da Igreja. Teme-se por uma aproximação
da Cabeça da Igreja e o nosso movimento, teme-se uma perda dos resultados
do Vaticano II, e se põem tudo em movimento para neutralizá-la.
O que pensa o Papa realmente a este respeito? Onde ele se situa? Os judeus e
os progressistas lhe exigem que escolha: ou eles ou nós… a ponto
de que a Secretaria de Estado não teve melhor idéia do que pôr
como condição necessária para nosso reconhecimento canônico,
a aceitação completa do que consideramos como a fonte principal
dos problemas atuais e aos quais nos opomos sempre…
Tanto eles como nós estamos obrigados ao juramento antimodernista e submetidos
às outras condenações da Igreja. Por isso não aceitamos
abordar o Concílio Vaticano II a não ser sob a luz destas declarações
solenes (profissões de fé e juramento antimodernista) feitas diante
de Deus e da Igreja. E se aparece uma incompatibilidade, então necessariamente
o errado são as novidades. Contamos com as discussões doutrinais
anunciadas para por estes pontos em evidência o mais profundamente possível.
Aproveitando da nova situação depois do decreto sobre as excomunhões,
que não mudou em nada a situação canônica da Fraternidade,
muitos bispos tentam impor-nos um círculo quadrado, exigindo uma obediência
à letra do Direito Canônico, como se estivéssemos perfeitamente
regularizados, quando, ao mesmo tempo, nos declaram canonicamente inexistentes!
Um bispo alemão já anunciou que antes do fim do ano a Fraternidade
voltará a estar fora da Igreja… Perspectiva encantadora! A única
solução possível, além do que é a que tínhamos
pedido, é a de uma situação intermediaria, inevitavelmente
incompleta e imperfeita a nível canônico, mas que seja aceita como
tal, sem jogar no nosso rosto a acusação constante de desobediência
e rebeldia, e sem impor-no proibições intoleráveis; porque,
a fim de contas, o estado anormal em que se encontra a Igreja e que nós
chamamos “estado de necessidade” volta a ser demonstrado
pela atitude e palavras de certos bispos em relação ao Papa e
a Tradição.
Para aonde caminharão as coisas? Não sabemos. Mantemos nossa proposta
de que se aceite a nossa posição atual imperfeita como provisória,
abordando finalmente as discussões doutrinais anunciadas e esperando
que alcancem bons frutos.
Num caminho tão difícil, diante de oposições tão
violentas, lhes pedimos queridos fiéis recorrer à oração
mais uma vez. Achamos que é o momento indicado para lança uma
ofensiva de maior envergadura, profundamente enraizada na mensagem de Nossa
Senhora de Fátima, na que Ela mesma promete um resultado feliz, pois
que anunciou que ao final o seu Imaculado Coração triunfará.
Nós lhe pedimos este triunfo através dos meios que Ela mesma pediu:
a consagração, pelo Pastor Supremo e todos os bispos do mundo
católico, de Rússia ao seu Coração Imaculado, e
a propagação da devoção ao Seu Coração
Doloroso e Imaculado.
Por isso nós queremos Lhe oferecer com este fim, daqui até o dia
25 de março de 2010, um buquê de 12 milhões de terços,
como uma coroa de outras tantas estrelas à sua volta, acompanhado de
uma suma equivalentemente importante de sacrifícios quotidianos que nós
teremos o cuidado de realizá-los principalmente no cumprimento fiel do
nosso dever de estado, e com a promessa de propagar a devoção
ao seu Coração Imaculado. Ela mesma apresenta isto como o fim
das suas aparições em Fátima. Estamos intimamente persuadidos
de que se seguimos com atenção o que Ela nos pede, alcançaremos
muito mais do que não ousaríamos esperar, e principalmente que
nós asseguramos nossa salvação aproveitando das graças
que Ela prometeu.
Pedimos, portanto aos nossos padres também um esforço particular
para facilitar aos fiéis esta devoção, pondo o acento não
somente na comunhão reparadora dos primeiros sábados do mês,
mas também movendo os fiéis a viver uma intimidade mais profunda
com Nossa Senhora, consagrando-se ao seu Coração Imaculado. Seria
conveniente conhecer melhor e aprofundar a espiritualidade do grande arauto
da Imaculada, o Padre Maximiliano Kolbe.
Neste ano cumprimos 25 anos da consagração de nossa Fraternidade
ao Coração Imaculado. Nós queremos renovar esta feliz iniciativa
do Padre Schmidberger pondo aí toda nossa alma e reavivando no nosso
coração este espírito. É evidente que não
temos a intenção de indicar à Divina Providência
o que Ela deveria fazer; mas, nos exemplos dos Santos e da própria Sagrada
Escritura vemos que os grandes desejos podem precipitar de maneira impressionante
os desígnios de Deus. É com esta audácia que hoje confiamos
esta intenção ao Coração Imaculado de Maria, pedindo-Lhe
que nos receba a todos sob a sua maternal proteção. Que Deus os
abençoe abundantemente!
Na festa da Ressurreição gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo,
+ Bernard Fellay