Caros amigos e benfeitores:
Em alguns dias celebraremos a feliz chegada do Natal de
Nosso Senhor Jesus Cristo. A santa Liturgia do Advento
e do tempo Natal está cheia de fé na divindade de Nosso
Senhor. Empregando principalmente o Antigo Testamento,
onde está profetizada sua vinda, ela impregna nossa inteligência
e nosso coração com a grandeza infinita das prerrogativas
e dos direitos do Menino recém-nascido.
“Aquele que desde toda a eternidade nasceu de um
Pai sem mãe, nasce no tempo de uma Mãe sem pai!”
(Profissão de Fé do XI Concílio de Toledo).
Recebendo sua natureza humana da Santíssima Virgem Maria,
sua Mãe, cuja Virgindade Ele preservou, Ele prova por
esse mesmo fato que não perdeu nada de sua Divindade.
“Na sarça que Moisés via e que não se consumia, reconhecemos
vossa louvável e intacta virgindade” (antífona de
Laudes de 1º de janeiro). Verdadeiro Deus, verdadeiro
homem, a Igreja se compraz em receber Jesus, nosso Salvador,
honrando-o com o título de Rei.
O Rei da Paz, Rex Pacificus. Aqui, gostaríamos de desenvolver
um pouco esta verdade, que é como o coração da crise que
sacode a Igreja e que condiciona as relações da Fraternidade
São Pio X com a Santa Sé.
De fato, parece-nos que se pode resumir o fundo do problema
atual em uma perda da fé na divindade de Nosso Senhor
Jesus Cristo. Oh! Certamente muitos protestam que creem
que Jesus é Deus, mas muito poucos estão dispostos a tirar
as consequências concretas desta verdade fundamental que
brilhará diante dos olhos do mundo inteiro no fim dos
tempos. Nesse momento, Ele deixará finalmente resplandecer
a sua glória em toda sua perfeição. A extensão de seus
poderes sobre toda criatura será tal que todos os homens
—pagãos, cristãos, ateus, incrédulos, bandidos e fiéis—, todos se prostrarão diante dele, porque ao seu Nome
todo joelho se dobrará na terra como no céu (cf. Fil.
2,10).
Durante o curto período de tempo de sua vida terrena em
que se comprazia estar entre nós, Ele escondeu em parte
sua soberania. Mas isso foi apenas durante o tempo de
prova, o tempo para cumprir sua missão redentora: “Ele
morreu por nossos pecados” (1 Cor. 15,3).
Mas durante esse tempo em que Ele escondeu dos nossos
olhos a sua onipotência, Ele não perdeu nada dela. “Todo
o poder me foi dado no céu e na terra” (Mt. 28,18)
é uma afirmação que deve ser tomada literalmente, Ele
que cria todas as coisas, por quem tudo foi criado, sem
o qual nada do que foi feito foi criado (cf. Jo. 1,3).
A rejeição prática da divindade de Nosso Senhor se manifesta
frequentemente na história dos homens pela rejeição da
sua Realeza, que já foi o título e a razão da sua condenação:
“Jesus Nazarenus, Rex Judæorum” (Jo. 19,19).
E na história, muito frequentemente a rejeição de Deus
se manifesta pela recusa da submissão a Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Foi preciso chegar à metade do século XX para assistir
a esse incrível acontecimento que permitiu ver um concílio
que, dizendo-se em nome da adaptação à situação concreta
da sociedade humana em plena decadência, modificou a proclamação
de todos os tempos: “É preciso que Ele reine”
(1 Cor. 15,25). Pretende-se que essa maneira de agir estaria
em harmonia com os Evangelhos, quando é exatamente o contrário.
Os sofistas do liberalismo difundiram que o Estado, a
sociedade humana, que também é uma criatura de Deus, devia
tratar com igualdade a única religião verdadeira e todas
as falsas, concedendo a cada uma de igual modo o direito
de existir, de desenvolver-se sem restrições e de exercer
o seu culto.
Pretendia-se com isso opor os abusos do Estado totalitário
que esmaga injustamente os seres humanos e oprime a consciência
de cada um. Os mesmos mações expressaram sua alegria por
terem ouvido ressoar sob a cúpula de São Pedro estas teses
que são próprias deles (cf. Yves Marsaudon, “O ecumenismo
visto por um franco-maçom de tradição”, 1964).
É evidente que existe alguma parte de verdade no mal que
se denuncia. Mas o remédio é aquele que a Igreja sempre
indicou: a tolerância. O direito à liberdade religiosa,
tal como foi proclamado no Concílio Vaticano II, é outra
coisa. Este é um dos pontos em que tropeçamos com a Santa
Sé.
Esta liberdade religiosa, que coloca em nível de igualdade
o verdadeiro e o falso, deliberadamente dispensa o Estado
e a sociedade humana dos seus deveres de honrar e servir
a Deus, seu Criador. Abre o caminho para todas as licenças
em matéria religiosa. É como se na Igreja se tivesse renunciado
à prerrogativa de ser o único caminho de salvação para
todos os homens. Aqueles que ainda acreditam nisso não
o dizem mais. Muitos até fazem pensar o contrário. Esta
concessão ao mundo de hoje se faz à custa da Realeza de
Nosso Senhor Jesus Cristo.
Outra consequência, na mesma linha do que foi dito, se
vê na prática do ecumenismo. Sob o pretexto de poder estar
mais próximo dos nossos “irmãos separados”,
não se proclamam mais estas verdades, porém salvíficas,
porque elas são difíceis de ouvir. De modo deliberado
não se busca mais convertê-los. O ecumenismo NÃO QUER
MAIS CONVERTER. Essa palavra foi banida, ainda é tolerada,
mas em nome da liberdade religiosa! Onde está então a
Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo? Onde ficou a dignidade
dos católicos? E são os chefes que os fazem tornar-se
pusilânimes! Como se pôde constatar recentemente na França,
quando era necessário censurar obras de teatro blasfemas.
Se ofensas semelhantes tivessem sido cometidas contra
os muçulmanos, o país teria sido devorado pelas chamas
e embebido em sangue! Os cristãos de hoje se tornaram
tão moles que deixam fazer qualquer coisa! Não se atenta
contra a honra de um rei deste mundo, mas do Rei dos reis,
do Senhor dos senhores, Nosso Salvador, de quem recebemos
tudo!
Não há dúvida de que desejamos fervorosamente a salvação
e o retorno ao rebanho de todas essas almas tão caras
ao Coração de Nosso Senhor posto que Ele as resgatou com
o preço de sua vida! Mas a maneira atual de obrar não
tem nada em comum com as preocupações da unidade da Igreja
nos séculos passados. Supõe-se que todo o mundo é bom
e, portanto, a perspectiva de que alguns poderiam condenar-se
eternamente causa escândalo. Prega-se que o inferno está
vazio ou quase. Mas o ensinamento da Igreja é exatamente
o contrário...
Uma terceira pedra de tropeço está também ligada à diminuição
da autoridade.
Nosso Senhor é a cabeça da Igreja. Mas porque Ele quis
que sua Igreja fosse visível, tendo subido ao céu, Ele
deu à Sua Igreja uma cabeça visível que é o seu Vigário
na terra, Pedro e seus sucessores... Somente a ele Nosso
Senhor deu o poder de apascentar cordeiros e ovelhas,
só ele tem um poder pleno, soberano, imediato sobre todos
e cada um dos membros da Igreja. Por isso a Igreja sempre
se proclamou uma monarquia, governada por um só. É certo
que o caráter humano do governo torna compreensível a
busca de conselhos e opiniões de pessoas sábias, mas uma
forma de democracia, introduzida na Igreja pela colegialidade
e pela paródia parlamentar das conferências episcopais,
permite todo tipo de abusos e entrega à pressão de grupos
as disposições do Direito divino que determinam que cada
diocese tem apenas uma cabeça, o bispo do lugar.
Hoje a autoridade está seriamente abalada, não só de fora,
pela contestação dos responsáveis leigos que pretendem
tomar parte no governo, mas também no interior da Igreja,
pela introdução de uma série de conselhos e comissões
que, na atmosfera de hoje, impedem o exercício justo da
autoridade delegada por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Não é impressionante notar como, em cada uma dessas pedras
de tropeço, encontramos no fundo o mesmo problema? Para
agradar o mundo, ou pelo menos para se adaptar a ele,
se sacrificou de uma forma ou de outra a autoridade de
Nosso Senhor Jesus Cristo sobre os fiéis cristãos, sobre
todos os homens pelos quais Ele derramou o seu Sangue,
sobre todas as nações de quem são membros.
Eis aqui o que causa tanto mal à Igreja. Para sair desta
crise, é preciso “restaurar todas as coisas em Cristo”
(Ef. 1,10). Em todas as partes e em tudo dar-lhe o primeiro
lugar, a Ele que quer ser tudo em todos. Enquanto não
se quiser deixar este ar liberal que infecta a Igreja,
esta continuará a decair.
É por causa desta dolorosa realidade que as nossas relações
com Roma são difíceis.
Por isso na Fraternidade falamos tão frequentemente da
Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque ela é o resumo
na vida prática do reconhecimento da sua Divindade. Ele
tem pura e simplesmente todos os direitos sobre nós.
É para Ele que todos os homens, pagãos ou católicos, jovens
ou velhos, ricos ou pobres, poderosos ou fracos, todos,
absolutamente todos prestarão conta da sua vida aqui na
terra, - para Ele, seu soberano Juiz e seu Deus de quem
receberam tudo. Esperamos que estas linhas mostrem como
a doutrina da Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é atual,
como o combate por esta Realeza de Nosso Senhor Jesus
Cristo não é antiquado, senão, pelo contrário, muito necessário.
Hoje é uma obrigação para sobrevivermos.
Que Nossa Senhora, Mãe de Jesus, Mãe de Deus, digne-se
ouvir as nossas orações para a glória de seu Filho. Que
Ela nos proteja, que Ela guarde a nossa pequena Fraternidade
em meio a tantos perigos, e que Ela seja nossa guia, nossa
advogada, nossa vitória contra nós mesmos e nossa pusilanimidade.
Que Ela seja a nossa esperança, enquanto aguardamos seu
triunfo pelo qual rogamos assiduamente, que Ela seja a
nossa alegria já aqui embaixo e por toda a eternidade.
Nos cum prole pia, benedicat Virgo Maria.
Na festa de São Tomé Apóstolo, 21 de dezembro de 2011.