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EDITORIAL DEL NÚMERO 119

 
 

Versión en castellano


PIEDADE DELAS…

Certamente alguma vez lhes aconteceu ter que assistir às exéquias de um amigo ou de um membro de sua família, celebradas conforme o novo rito. As mudanças ocorridas na liturgia de defuntos manifestam de maneira decisiva, as devastações realizadas pela doutrina conciliar na Igreja.

É surprendente comprovar que hoje todo mundo tem direito às exéquias católicas. O homossexual, o comunista, o divorciado recasado, o que vive em concubinato, o maçom notório, que até ontem eram apontados como pecadores públicos, vêm hoje as portas da Igreja se abrirem sem que nenhuma voz episcopal ou sacerdotal levante a menor objeção. Deste modo, o que desprezou os mandamentos de Deus, a lei natural, os preceitos da Igreja recebem as mesmas honras eclesiásticas que aquele que lutou toda sua vida e fez penitência para praticar as virtudes e se esforçou por viver como filho de Deus e da Igreja. Há mais que injustiça nisso, há um escândalo no sentido literal da palavra, pois o vício é posto em pé de igualdade com a virtude.

Mas acontece, de vez em quando, que um padre ou bispo tem a coragem de lembrar a doutrina tradicional da Igreja a respeito das exéquias católicas. A reação da imprensa é então imediata: gritam e denunciam uma volta ao obscurantismo medieval e uma grave lesão da caridade que a Igreja ensina e que deveria praticar.

A nova teologia do mistério Pascual ensinada já faz quarenta anos é a causa da atitude inadmissível do clero de hoje. O sentido das exéquias católicas foi totalmente ridicularizado. Até o último concílio a Igreja recusava conceder as honras de um enterro católico a todos os pecadores públicos mencionados anteriormente. Celebrando o rito das exéquias, a Igreja quer rezar pela alma de um de seus filhos para que Deus tenha misericórdia dela, lhe perdoe os pecados e lhe livre do Purgatório, aonde vão, em grande número, para acabar de ser purificados antes de entrar na bem-aventurança eterna. Ela lhes oferece então, as melhores e mais eficazes orações que tem, ou seja, a celebração da Santa Missa, que renova o sacrifício de N. Senhor, aplicando ao defunto os seus méritos.

Mas o Concílio passou por aí também! A pregação do clero mudou. Não pregam mais sobre os novíssimos. A existência do inferno e o perigo que ele representa para o pecador endurecido foram abandonados ao esquecimento, ou postos entre as fábulas medievais que não se adaptam mais à nossa época tão esclarecida. A doutrina sobre o Purgatório sofreu o mesmo tratamento. A cor negra dos paramentos, que chamava à conversão e ao luto foi trocada pelo roxo, que com o passar dos anos, chegou quase a rosa, quando não acontece que seja simplesmente substituído pelo branco. Também foi suprimido o magnífico Dies Iræ, súplica sublime da alma dirigida ao seu Criador e Juiz implorando sua misericórdia por suas faltas. É preciso se desfazer de tudo isso! Em razão da nova teoria do Mistério Pascual que afirma que Cristo morto e ressuscitado salvou todas as almas de uma vez por todas, nós devemos considerar-nos já salvos. A alma, ao fim de sua carreira terrestre, tem sua união a Deus garantida.

Em conseqüência a finalidade da liturgia de defuntos foi totalmente modificada. Nos enterros, já não se trata de rezar pelo eterno descanso do falecido – que provavelmente está sofrendo no Purgatório – mas de agradecer-lhe a Deus por tê-lo recebido no céu junto a Si; Certamente está lá, e nós ali o encontraremos de novo. O leitor entenderá então porque já não é necessário oferecer o santo sacrifício da Missa para reparar os pecados do falecido, nem de chamar a assistência à conversão “antes que seja tarde demais”.

Antigamente, todos os párocos aproveitavam a ocasião de um enterro para lembrar no sermão as verdades sobre o fim último do homem. O padre encorajava os fiéis a rezarem pelos defuntos e chamava a assistência à conversão. Deste modo, todos saíam da cerimônia com o desejo de mudar de vida e de ajudar as almas dos finados que sofriam no Purgatório. Muitos são os que se converteram depois da assistência a uma Missa de enterro celebrada conforme o rito tradicional. A nova liturgia, emanação da nova teologia, perverteu totalmente o sentido das exéquias religiosas. Sua única finalidade é de reavivar nossa esperança! O falecido está salvo, e nós também estaremos, aleluia!

Esta teologia tem conseqüências gravíssimas. Quantas almas não se condenarão por causa deste otimismo feliz e culpável, completamente alheio à doutrina católica tradicional! Quantas almas sofrem no Purgatório abandonadas porque não há mais quem veja a necessidade de rezar por elas, pelo seu descanso, por sua liberação!

Os efeitos desta mudança não se fizeram esperar! Em muitos casos, mesmo no dia do enterro, não se celebra mais a Missa. Unicamente está previsto uma simples benção acompanhada de um tempo de reflexão, muitas vezes entrecortado de leituras profanas e seguida de apresentações de testemunhos emotivos de amigos e parentes exaltando as excelências do falecido. Eis aqui um santo! Podemos acrescentar a tudo isso a execução de músicas ou de discos que o finado apreciava… Outra conseqüência lógica desta nova teologia é que a Missa quotidiana pelos defuntos ou a de aniversário de falecimento praticamente não é mais celebrada nas paróquias de hoje.

É impossível permanecer calado diante de tais erros. Devemos recordar as verdades eternas! Piedade das almas do Purgatório! Rezemos por elas, façamos celebrar Missas por elas. É um dever de justiça e de caridade. Estas almas, uma vez liberadas, saberão manifestar sua gratidão e serão nossas advogadas quando prestemos contas sobre a nossa vida. Neste momento tão delicado teremos necessidade delas!

Certamente, mandar celebrar Missas por nossos falecidos exige de nós um esforço financeiro, mas nós sabemos o grande benefício que será para as almas pelas quais são celebradas essas Missas. Conta-se de um pai falecido que apareceu a sua filha religiosa para dizer-lhe que estava sofrendo no Purgatório porque tinha descuidado mandar celebrar Missa por seus próprios falecidos… Imediatamente a religiosa mandou celebrar uma por seu pai, que depois voltou a aparecer-lhe radiante e aliviado. Tinha entrado no céu! Isso é para que o meditemos!

Além do que, é necessário lembrar que Deus não nos salvará sem nós. Ele quer nossa colaboração. Deus não se impõem. Devemos levar nossa cruz de cada dia, fazer penitência e fazer nosso purgatório aqui nesta terra para poder contemplar a Deus um dia no Paraíso. Por esta razão permite que passemos pelas provas. A doença, o luto, os fracassos, as preocupações materiais ou espirituais aceitadas e levadas com fé e com a graça de Deus são verdadeiros elevadores para o Paraíso. Ao contrário, uma alma que de propósito viveu longe de Deus, da Igreja e dos sacramentos, no momento de separar-se do corpo pela morte, não suportará a luz divina que recusou na terra e irá por si mesma a lançar-se “ali onde haverá choro e ranger de dentes”, ou seja, no inferno, tal como disse Nossa Senhora aos pastorzinhos de Fátima.

Quanto aos que viveram na tibieza durante sua vida, mas que deixaram este mundo em estado de graça, sem ter expiado completamente suas faltas e reparado seu descuido, estes irão ao Purgatório, onde sabemos que a menor das dores é enormemente maior que qualquer sofrimento que podemos suportar nesta terra. Isto também nos deve fazer reflexionar!

Deste modo, queridos amigos, tenham piedade das almas do Purgatório! Piedade de nossas almas!

Desejo-lhes a todos um santo tempo de Advento, e desde já um santo Natal.

Que Deus os abençoe!

Padre Christian Bouchacourt
Superior de Distrito América del Sur