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EDITORIAL DEL NÚMERO 124

 
 

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ELA É DIVINA

Quando São José e a Santíssima Virgem bateram nas portas dos albergues de Belém para pedir hospedagem, sua aparência comum não permitia adivinhar a grandeza dos acontecimentos que se preparavam. Os pastores não imaginavam que poderiam encontrar o Rei dos reis numa pobreza tão grande quando chegaram ao presépio para adorar ao Menino Jesus. Os Reis Magos, certamente também se deram conta disto.

Em Belém a divindade de Cristo apareceu muito discretamente. E no entanto, tanto os pastores como os Reis Magos não deixaram de adorar o Menino deitado na manjedoura. Fiéis à graça divina que receberam, foram os primeiros a reconhecer a Redentor do mundo.

Para lhes encorajar a crer, Deus quis, pois que o véu da sua divindade se levantasse um pouco. Assim foram os anjos que avisaram aos pastores do feliz acontecimento e uma estrela milagrosa conduziu os Magos vindos do Oriente aos pés de Deus encarnado.

Nós sabemos que, durante a sua vida pública, a divindade de Cristo se manifestou visivelmente varias vezes pelos milagres. Nosso Senhor Jesus Cristo quis deste modo ajudar os seus Apóstolos e discípulos a crer. Mas freqüentemente, para provar sua Fé, a divindade de Cristo se ocultou. Durante a Paixão especialmente, esta permaneceu totalmente escondida, a não ser no instante em que Nosso Senhor Jesus Cristo expirou na Cruz.

Então “a terra tremeu, o véu do Templo se rasgou de cima a baixo em duas partes (…) muitos santos ressuscitaram (…) o centurião e os soldados que o acompanhavam vendo o terremoto e tudo o que aconteceu, encheram-se de espanto e disseram: «Verdadeiramente este era Filho de Deus»”.(1) E no entanto poucos creram. A Santíssima Virgem e São João estavam sós ao pé da Cruz… Mas a divindade de Cristo triunfou de maneira admirável na ressurreição.

Antes de retornar ao Pai, Cristo, não querendo nos abandonar, conferiu à sua Igreja seus próprios poderes para que Ela continuasse sua missão de ensinar, de governar e de santificar as almas que lhe seriam confiadas. Certamente esta Igreja é composta de homens falíveis, mas nós não devemos nunca esquecer que Ela é também divina por sua origem e pelos meios que Nosso Senhor, seu Fundador, lhe confiou para salvar os homens e levá-los ao céu.

Do mesmo modo que Nosso Senhor permitia que a sua divindade brilhasse de tempos em tempos para reconfortar a Fé dos seus Apóstolos e discípulos, assim também o fez durante o curso da história da Igreja. Permitiu que a sua divindade se manifestasse, às vezes discretamente, mas com grande eficácia, nos momentos mais trágicos para reconfortar os bons, para confusão dos maus e por fidelidade às suas promessas feitas antes de sua Ascensão: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”,(2) “As portas do inferno não prevalecerão”.(3)

Deste modo, quando tudo parecia perdido, a Igreja foi salva graças a um santo homem providencial que Deus suscitou. Assim foi Santo Domingo de Gusmão, assim Santo Inácio de Loiola, São Pio V, São Pio X. Nosso Senhor Jesus Cristo atua assim já faz dois mil anos, e continuará a fazê-lo até o fim dos tempos. É uma certeza de Fé.

E no entanto, hoje, alguns que sofrendo com razão esta crise que parece eternizar-se desde mais de 40 anos, dão a dupla impressão de desesperar da Igreja fundada por Jesus Cristo e de esquecer que se Ela está constituída por homens frágeis, não deixa por isso de ser divina na sua constituição. Vemos, entao um zelo amargo instalar-se naqueles que parecem ter perdido a esperança.

É necessário repetir que a Igreja é divina, e que Nosso Senhor não poder ser infiel às suas promessas. Ele não pode “nem enganar-Se nem enganar-nos”, nós dizemos no ato de Fé. Mas como explicar os silêncios de Deus nos momentos de prova? Por que não envia sinais para indicar onde está o caminho da Verdade?

Este caminho nós já o conhecemos: está traçado por 2000 anos de Tradição. Permanecendo-lhe fiel, como o foram os santos que nos precederam, nós estaremos seguros de cumprir com a vontade de Deus e de salvar nossas almas. O grande Bossuet, bispo de Meaux na França, explica admiravelmente os silêncios de Deus com estas palavras: “Quando Deus quer que uma obra seja inteiramente sua, Ele reduz tudo à impotência e nada, e então Ele atua”. Parece-me que estamos nesta situação hoje, pois humanamente falando, nós não vemos como a Igreja poderia sair desta crise que a aflige do seu interior e exterior. E apesar disso estamos certos que Ela não poderá nem submergir-Se nem desaparecer.

Devemos por isso renunciar a toda ação pessoal e a todo apostolado? Devemos viver fechar-nos sobre nós mesmos e esperar o fim do mundo? O R. Pe. Calmel O.P. dominicano (1914-1975) capelão das dominicanas de Brignoles, respondia com estas palavras: “Muitos fiéis, padres, bispos, queriam que nos dias das grandes angustias, quando a Igreja é provada pelo seu Papa, as coisas voltassem aos seus lugares sem que eles tivessem nada que fazer, ou quase nada. No máximo aceitariam murmurar algumas orações. Eles até ficam em dúvida diante do seu Terço: cinco dezenas cada dia oferecidas a Nossa Senhora (…) Eles tem pouca ânimo, no que se refere a eles mesmos, de aprofundar a sua fidelidade à Tradição apostólica: dogmas, missal e ritual, vida interior (pois o progresso da vida interior faz parte, evidentemente, da tradição apostólica). Tendo, no que lhes compete, consentido na tibieza, eles se escandalizam de que o Papa, no que Lhe compete, não seja também fervoroso para guardar para a Igreja inteira a tradição apostólica, ou seja, de cumprir fielmente a sua missa única que lhe foi confiada. Este modo de ver as coisas não é correto. Quanto mais nós temos a necessidade de um Papa santo, mais nós temos que começar por colocar nossa vida, com a graça de Deus e mantendo a tradição, no caminho dos santos. Então Nosso Senhor terminará por conceder ao seu rebanho o Pastor visível que se esforçará por ser-Lhe digno”.(4)

Como os pastores e os Reis Magos, vamos suplicar ao Menino Jesus, que transforme nossas almas e que venha em socorro à sua Igreja. Ele também, na sua manjedoura parece bem pequeno e impotente, mas é Deus. Escutemos que nos diz: “Confiança, pequeno rebanho, Eu venci o mundo”.(5) Guardemos, pois a esperança cristã bem enraizada nas nossas almas no começo deste novo ano. Cada qual do seu lugar. Quando tudo parece perdido é quando Ele nos manifesta a sua ajuda infalível. Neste dia, ninguém poderá se atribuir a vitória, pois será então a Sua vitória. Com coragem e Fé trabalhemos, pois, na nossa santificação para alcançar a restauração da Tradição na Igreja. São os votos que formulo para cada um de nós. Os padres do Distrito da América do Sul se unem a mim para lhes desejar um bom e santo ano novo.

Que o Menino Jesus e sua Santa Mãe lhes guardem e protejam durante todo o ano de 2010.

Que Deus os abençoe!

Pe Christian Bouchacourt
Superior de Distrito América del Sur

Notas:

1. Mt. XXVII, 51-54.

2. Mt, XXVIII, 20.
3. Mt, XV, 18.
4. R. Pe Calmel: Breve apología da Igreja de sempre. Edições Difralivre, p. 115.
5. Jo. XVI, 33.