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EDITORIAL DEL NÚMERO 128

 
 

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CRIMES E CASTIGOS

Cada vez que acontece uma catástrofe em algum lugar, como foi recentemente o caso do Haiti e do Chile, o homem moderno se desata em uma enxurrada de comentários. Alguns veem aí a prova que Deus não existe, pois, do contrário, impediria que se seguissem tais eventos.

Outros, muitas vezes católicos, recusam-se a ver a mão de Deus. Essas tragédias, dizem eles, são devidas simplesmente às anomalias das leis da natureza. Ninguém pensa na possibilidade de que se trata de um castigo de Deus, porque Ele é bom 6 Por conseguinte, o clero se abstém de chamar os homens à penitência e insiste em que nesses tempos difíceis a Igreja está ao lado das vítimas para confortá-las e ajudá-las como faria uma boa ONG. Tudo isso é muito humano, demasiado humano...

Porque afinal, o Antigo e o Novo Testamento e o ensino da Igreja nos proveem de grandes luzes para esclarecer acontecimentos tão dramáticos.

É evidente que o sofrimento e o mal são grandes mistérios que somente a fé pode iluminar. Desde o princípio da criação, Deus recorda ao homem qual é o seu dever. Quando o homem se subtrai a isso, Ele castiga. E foi assim que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso depois da sua desobediência, enquanto que o dilúvio destruiu grande parte da humanidade que não cessava de afastar-se de Deus. Sodoma e Gomorra foram destruídas por causa dos excessos dos pecados contra a natureza. Lembremos também das sete pragas com que o Egito foi castigado por flagelar o povo de Israel.

Isto não foi mais que uma repreensão do céu. No Antigo Testamento, cada vez que o povo judeu se afastava dos ensinamentos divinos transmitidos pelos patriarcas e pelos profetas, Deus castigava esse “povo de dura cerviz” para trazê-lo de volta ao bom caminho.

Moisés foi castigado por Deus por duvidar em bater na pedra duas vezes: morreu antes de entrar na terra prometida.

Exemplos como estes abundam na Bíblia. No entanto, Deus, em sua bondade e justiça, recompensa o justo que cumpre a sua vontade, respeita os seus mandamentos ou faz penitência. Por ter mostrado uma obediência heroica, Deus prometeu a Abraão uma descendência numerosa. Do mesmo modo, Jonas foi quem evitou que a ira de Deus se abatesse sobre a cidade de Nínive por causa dos pecados: as suas autoridades e os seus habitantes fizeram penitência. Deus, porque é bom, também é justo. Não pode tratar da mesma forma quem se inclina à sua vontade e quem se afasta dela.

Alguém poderá contestar que nas catástrofes que se abatem sobre o mundo, não só os maus sofrem, mas também os justos. Isto não é uma injustiça? Deus, de fato, quer que o mal caia sobre os pecadores para castigá-los e para chamá-los à penitência, mas também permite que afete os bons que, a exemplo de Cristo, suportam estas provas terríveis e oferecem-nas com resignação para expiar e reparar os pecados dos homens, para aplacar a ira divina e para atrair graças a um mundo que não cessa de ofender a Deus.Foi esta a doutrina que Nosso Senhor ensinou. Recordemos aquelas palavras terríveis que dirigiu à multidão que o seguia: “Se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo”. (1) Estas palavras são um eco das que Isaías pronunciou no Antigo Testamento: “A nação e o reino que não te servir, perecerá, e tais nações serão devastadas”.(2)

As desgraças e desventuras que afligem os homens e o mundo são consequência do pecado e sucederão até o fim do mundo. Leão XIII não fez mais do que confirmar este ensinamento quando afirmou:

“O mesmo se dá com todas as outras calamidades que caíram sobre o homem: neste mundo estas calamidades não terão fim nem tréguas, porque os funestos frutos do pecado são amargos, acres, acerbos, e acompanham necessariamente o homem até ao derradeiro suspiro. Sim, a dor e o sofrimento são o apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo tentar para bani-los; mas não o conseguirão nunca, por mais recursos que empreguem e por maiores forças que para isso desenvolvam. Se há quem, atribuindo-se o poder fazê-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de sofrimentos e de trabalhos, toda de repouso e de perpétuos gozos, certamente engana o povo e lhe prepara laços, onde se ocultam, para o futuro, calamidades mais terríveis que as do presente. O melhor partido consiste em ver as coisas tais quais são, e, como dissemos, em procurar um remédio que possa aliviar os nossos males”. (3)

Deus não se impõe. Se os homens não querem saber nada mais Dele, se retira e os abandona à própria sorte. Nesse caso, porém, deverão assumir as consequências. Em Fátima, a Virgem Maria não disse outra coisa na segunda parte do segredo que revelou aos pastorinhos no dia 13 de julho de 1917:(3)

“Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre”. Colocados diante desta realidade, as graciosas explicações que o clero conciliar costuma dar são irresponsáveis: “De Deus não se zomba”. (4)

É evidente que as leis mortíferas que os inimigos de Deus e da Igreja se esforçam por impor em todas as sociedades não ficarão sem consequências. O aborto, a homossexualidade e tudo quanto vai contra a lei natural são crimes que, como nos ensina o catecismo, clamam por vingança ao céu e a Deus, porque o autor da lei natural é o próprio Deus. As sociedades que querem viver sob essas leis atraem para si a ira de Deus e não verão a paz social e a prosperidade enquanto essas leis não forem revogadas. Até que isso aconteça, é impossível suceder qualquer restauração social e política. Esses países fariam melhor se temessem a cólera divina, pela razão de que tais leis levam em si mesmas o selo da rebelião contra Deus que, por ser Pai, não pode deixar impunes tais delitos.

Por conseguinte, devemos considerar sob o sinal da probabilidade, que pode não ser casual, que enquanto a antiga presidente do Chile, Bachelet, assinava um decreto ampliando o uso da “pílula do dia seguinte”, um terrível terremoto sacudiu a cidade de... Conceição.

Além disso, como explicar que a República Dominicana, que no ano anterior tinha sido consagrada pelos bispos do país ao Imaculado Coração de Maria, tenha ficado incólume do terremoto que devastou o Haiti, país contíguo, e que levou ao sepulcro 300.000 pessoas? A religião oficial do Haiti é o vodu... Os assustadores efeitos do terremoto pararam na fronteira entre os dois países... Mera casualidade? Não creio que seja.

Devemos rezar em nossos priorados e em nossas famílias para que Deus não permita que a Argentina e os outros países da América do Sul aprovem o matrimônio homossexual, e também temos que mostrar exterior e publicamente aos legisladores o nosso repúdio de tais leis.

Por fim, deixarei ao Cardeal Pie, que tanto inspirou São Pio X, que conclua este editorial. Suas palavras, mais uma vez, são muito luminosas:

“Nossos pais pediram a Deus que se afastasse deles. (5) Deus efetivamente se afastou, e para nos castigar não fez mais do que deixar-nos abandonados à nossa sorte. Imediatamente mil questões que há muito tinham sido resolvidas pelo Evangelho voltaram a se apresentar como problemas. Quebrou-se o equilíbrio. A sociedade ficou presa de mil sofrimentos internos. Cada dia apresentavam-se novos obstáculos. Por muito tempo acreditávamos que poderíamos domar o mal. Por muito tempo nos alimentamos de brilhantes quimeras. Se algum destelho reluzia no horizonte, sua aparição era recebida com entusiasmo. No entanto, o mal seguia durando e a enfermidade se complicava cada vez mais. Finalmente, desapareceram todas as nossas ilusões, as nossas esperanças foram frustradas. Se no meio da dúvida e da dor que são próprias da alma resta uma convicção firme e última, é que não há força humana que possa livrar a sociedade dos males sem conta que a oprimem. Então o que podemos fazer? (…) Não há meio termo: ou perecer, ou voltar para Deus. Escolhei!”. (6)

Com fé e confiança façamos subir nossa súplica à presença de Deus, adornando-a com nossas penitências para que salve nossas pátrias, preserve-as e suscite nela uma elite política e religiosa realmente católica, munida com a coragem de defender os direitos de Deus na terra e desejosa de trabalhar pela restauração do reino de Cristo Rei, que é o único que pode nos conduzir à prática da virtude, e dar a paz e a prosperidade às nossas sociedades agonizantes.

Que Deus os abençoe!

Pe Christian Bouchacourt
Superior de Distrito América del Sur

Notas:
1. S. Lucas, 13, 3.
2. Isaías, 60, 12.
3. Leão XIII, Rerum novarum, 15 de maio de 1891, nº 9 .
4. Gálatas 6, 7.
5. Jó 21, 14.
6. Card. Pie, Œuvres de Mgr l’Evêque de Poitiers, Carta pastoral da Quaresma, 1950, t. 1, pág. 139.