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FILHOS DA IGREJA
Os tempos difíceis que a Igreja atravessa
por quase 50 anos não devem nos desanimar nem fazer-nos
duvidar da Igreja Católica, que nos fez nascer para a graça
no dia do nosso batismo. Pelo contrário, reavivemos nossa
fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Divino
Fundador, que prometeu assisti-la até a sua volta: “Eu
estou sempre convosco até o fim dos tempos”.(1)
Esta Igreja, nascida do seu lado transpassado
na Sexta-feira, recebeu a missão de difundir os efeitos
da Encarnação e da Redenção do Salvador até o fim dos tempos.
À imitação do que Cristo fez durante sua vida terrena, ela
ensina, santifica e conduz as almas a Deus, confiante de
que nunca abdicará de sua missão, nem perecerá jamais: “Tu
és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e
portas do inferno não prevalecerão contra ela”.
(2)
Cristo confiou os seus ensinamentos à Igreja. Ela não é
sua proprietária, mas sua depositária. No cumprimento do
seu mandato, leva-os até os confins da terra para dispor
as almas a receber a vida sobrenatural, iluminá-las e conduzi-las
à vida eterna. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho
a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas
quem não crer será condenado”.(3)
Esse é o roteiro que a Igreja recebeu do seu Divino Fundador
e que deve seguir até a sua segunda vinda. Sua hierarquia,
sua disciplina, sua organização interna, seu direito canônico
estão a serviço da doutrina recebida de Cristo para transmitir
a fé que ela deve conservar, explicar, explicitar, defender
e transmitir em toda sua integridade para o bem das almas
e com a assistência do Espírito Santo. Ninguém, até mesmo
o Papa, pode mudar substancialmente este depósito recebido,
sem correr o risco de ofender gravemente a Deus e comprometer
a fé dos próprios católicos.
A Igreja cumpre esta missão
a dois mil anos, mantendo sua unidade, conservando esta
herança contra os ataques do erro, apesar das perseguições
que não faltaram desde sua fundação e as traições de certos
membros que ela excluiu de seu seio. Fortalecida por esta
assistência divina, não cessou de se consolidar e estender-se
por toda a face da terra, apoiando-se sobre os dois pilares
que constituem a Revelação: a Sagrada Escritura e a Tradição.
A Sagrada Escritura é a palavra de Deus posta por escrito
sob a inspiração do Espírito Santo e registrada nos 72 livros
da Bíblia (45 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento).
Quanto à Tradição, ela se reflete na prática da Igreja,
nas fórmulas e nos usos litúrgicos, nos escritos dos Padres
e dos Doutores da Igreja, nos Credos, nos Concílios, nas
encíclicas dos Papas, nos catecismos, nas obras de arte
sacra, etc.
Este patrimônio chegou intacto até nossos dias.
Estas são as fontes nas quais beberam os filhos da Igreja
ao longo de toda sua história. A posta em prática desta
doutrina deu frutos visíveis: a Cristandade. Os homens,
as mulheres, as famílias, a sociedade foram transformados
por este tesouro e o céu se encheu de santos, conhecidos
e desconhecidos. Nós queremos conhecer esta herança preciosa
e ser fiéis a ela, defendê-la e transmiti-la em toda sua
pureza para as gerações futuras. Negá-la significaria negar
Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como os papas, os mártires
e os santos que nos precederam.
Desde a 50 anos, com o Concílio Vaticano II, os homens da
Igreja querem adaptar este depósito revelado à mentalidade
moderna. Este foi o famoso aggiornamento conciliar.
Buscava-se modificar profundamente estes dois pilares sobre
os quais aIgreja se apóia: a Sagrada Escritura e a Tradição.
Em conformidade com este funesto espírito, foram revisados
e corrigidos os textos sagrados da Bíblia e sua interpretação.
Também se iniciou uma ruptura com a Tradição bimilenar da
Igreja. Por isso, transformou-se a liturgia, o Direito Canônico,
o catecismo, a arte católica, para adaptá-los à nova doutrina
ensinada. À semelhança da Revolução Francesa, toda referência
ao passado devia desaparecer. O “ano 1” da Igreja Conciliar
começou, então, com João XXIII e o Concílio
Vaticano II. Fez-se tábua rasa do passado. Uma primavera
foi anunciada, mas o que chegou foi um inverno! Um inverno
glacial que esterilizou a Igreja e suas obras, porque se
quis separar a Igreja de seu Esposo, Jesus Cristo, para
casá-la com o mundo. Esta família reconstituída recebeu
o nome de “Igreja conciliar”, segundo as próprias
palavras do Cardeal Benelli. Assim se chegou
a uma crise sem precedentes, que até à data ainda não chegou
ao fim. A Igreja foi abalada até os seus fundamentos. Os
filhos da Igreja de sempre, opostos a este “espírito
conciliar”, tiveram que passar à resistência e a sofrer
perseguição de Roma, dos bispos e dos padres para conservar
sua fé. Que mistério insondável! O Padre Calmel,
sacerdote dominicano francês, capelão das irmãs dominicanas
de Brignoles, grande defensor da Tradição desde os primeiros
tempos, escreveu estas magníficas palavras: “De nenhuma
maneira formamos uma seita marginal. Somos membros da única
Igreja Católica, Apostólica e Romana. Fazemos o possível
para preparar o dia abençoado em que, voltando a autoridade
a ser o que nunca deveria ter deixado de ser, a Igreja,
à vista de todos, finalmente será livrada da neblina sufocante
das provações presentes. Ainda que esse dias demore a chegar,
buscamos não abandonar de forma nenhuma o nosso dever essencial
de nos santificarmos; e fazemos isso guardando a Tradição
no mesmo espírito que a recebemos, que é um espírito de
santidade”.(4)
Animado por este mesmo espírito, um filho
eminente da Igreja e digno sucessor dos Apóstolos, Mons.
Lefebvre, viajou incessantemente de Ecône a Roma e vice-versa
para tentar convencer o Papa e a Cúria para retornarem à
Tradição, não querendo nunca romper com a Sé de Pedro. Eis
o que ele pregava em 26 de fevereiro de 1983 no Seminário
de Zaitzkofen antes de ordenar o Padre Ceriani e alguns
outros diáconos: “(...) Alguns membros da Fraternidade,
infelizmente, pensaram que não havia nenhuma razão para
ir a Roma, que não se deveria mais ter contatos com aqueles
que hoje em dia caminham ao erro, mas que se deveria abandonar
a todos aqueles que aderiram ao Concílio Vaticano II e suas
conseqüências. E por isso mesmo, porque a Fraternidade continuou
a manter contatos com Roma e com o Papa, preferiram abandonar
a Fraternidade.
“Isso nunca foi o que a Fraternidade fez,
e nunca foi o exemplo que eu considerei necessário dar.
Pelo contrário: não deixo de ir a Roma. Continuo mantendo
contatos com o cardeal Ratzinger, a quem já conheceis, com
o propósito de que Roma volte à Tradição. Se eu pensasse
que o Papa não existe mais, que não há Papa, para que ir
a Roma? E então, como esperar que Roma volte à Tradição?
Porque é o Papa que deve fazer que a Igreja volte à Tradição.
A ele corresponde essa responsabilidade. Se hoje em dia
infelizmente se deixa arrastar pelos erros do Vaticano II,
isso não é motivo para abandoná-lo. Muito pelo contrário:
devemos colocar todo nosso esforço para fazê-lo refletir
sobre a gravidade da situação, fazer que volte à Tradição
e pedir-lhe que faça a Igreja voltar para o caminho seguido
por vinte séculos.
“Sem dúvida, alguns me dirão (como dizem
aqueles que se afastaram de nós): ‘É inútil, está perdendo
seu tempo!’ O que acontece é que eles não têm confiança
em Deus. Deus pode todas as coisas! Do ponto de vista humano,
realmente é decepcionante, mas devemos rezar, rezar o dobro
pelo Papa, para que Deus o ilumine, para que finalmente
abra os olhos, para que veja os desastres que se expandem
na Igreja. Devemos rezar para que os seminários se encham
como estão os nossos, para formar novamente padres que celebrem
a verdadeira Missa e cantem as glórias de Deus, como Cristo
fez na cruz, e para que continuem o Sacrifício da Cruz.
“É por isso que vou a Roma! Esta é a Fraternidade.”
Este
é também o caminho seguido por seu sucessor, Dom Fellay,
após a morte do nosso fundador. Como somos filhos da Igreja,
não podemos resignar-nos a ver que a Tradição seja expatriada
de seu seio, como ainda é no presente. Essa foi a finalidade
dos recentes discussões doutrinais: mostrar às autoridades
romanas que a Igreja não pode ser cortada de sua raiz, como
fez durante o último concílio e as décadas seguintes. De
fato, a solução da crise pela qual atravessa a Igreja se
encontra na restauração da Tradição em todos os seus níveis.
Estamos convencidos de que um dia essa restauração irá ocorrer,
mesmo que leve tempo... Já é possível ouvir algumas vozes
– que não são vozes da Fraternidade – pedindo que se faça
uma análise crítica dos textos do último concílio. Tal atitude
era impensável a 10 anos. Não há dúvida de que este movimento
ainda é tímido, mas não deixa de ser real e crescerá. A
ala progressista se opõe a tal eventualidade e se oporá
por todos os meios, como os inimigos da Igreja, a esta restauração.
Quanto a nós, filhos da Igreja, é preciso que não percamos
o ânimo, que guardemos a fé e a esperança iluminadas pela
caridade, rezar e fazer penitência pela Igreja e por sua
hierarquia.
Façamos nossas as palavras de Nossa Senhora
de La Salette: “Chamo os meus filhos, os meus verdadeiros
devotos, aqueles que já se consagraram a mim a fim de que
vos conduza ao meu Divino Filho; os que, por assim dizer,
levo nos meus braços, os que têm vivido do meu Espírito;
finalmente, chamo os apóstolos dos últimos tempos, os fiéis
discípulos de Jesus Cristo que têm vivido no desprezo do
mundo e de si próprios, na pobreza e na humildade, no desprezo
e no silêncio, na oração e na mortificação, na castidade
e na união com Deus, no sofrimento e no desconhecimento
do mundo. Já é hora de que saiam e venham iluminar a Terra.
Ide e mostrai-vos como filhos queridos meus. Eu estou convosco
e em vós sempre que a vossa fé seja a luz que alumie, e
nesses dias de infortúnio, que o vosso zelo vos faça famintos
da glória de Deus e da honra de Jesus Cristo. Lutai, filhos
da luz, vós que sois em pequeno número e que vedes; porque
vem o tempo dos tempos, o fim dos fins”.
Que cada um esteja
em seu lugar, ali onde a Providência o colocou, para cumprir
fervorosamente o seu dever de estado, rezar o terço e fazer
penitência pelas intenções da cruzada que Dom Fellay nos
chamou até Pentecostes de 2012, “para que a Igreja seja
libertada dos males que a afligem ou que a ameaçam em um
futuro próximo, para que a Rússia seja consagrada e venha
logo o triunfo da Imaculada”. Eis o que a Igreja espera
dos seus filhos e filhas! Está à mão de todos. Ninguém pode
ficar isento desta obrigação sem mostrar ingratidão a quem
nos fez nascer para a graça. Façamos isso com grande confiança
pela honra de nossa mãe, a Santa Igreja, e pela salvação
das almas.
Que Deus os abençoe!
Pé Christian Bouchacourt
Superior de
Distrito América del Sur
(1) Mat. 28, 20.
(2) Mat. 16, 18.
(3) Mc. 16, 15-16.
(4) Pé Calmel,
O.P.: “Brève apologie pour l’Eglise de toujours”,
anexo 2, pág. 98.
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